Los Andes: do rebaixamento ao título do Brasil, uma vitória da juventude, na raça e nos detalhes

27/11/2018

Feito inédito do Brasil, em Montevidéu, foi decidido no último putt do torneio, pelo mais jovem em campo

Kenji, Herik, Fred, Lucas e Andrey: feito inédito recoloca Brasil no topo do golfe Sul-Americano

artigo de Ricardo Fonseca

O Brasil não teve uma vitória arrasadora, invicta ou de ponta a ponta, mas a conquista do título da 73ª Copa Los Andes, o Campeonato Sul-Americano de Golfe por Equipes – 2018, sábado, 24 de novembro, no Club de Golf del Uruguay, em Montevidéu, entrou para a história da competição como a primeira em que um time rebaixado volta à chave principal para ser campeão. Esse foi o nono título do Brasil em 73 anos de história da competição, sete anos depois da última conquista, em 2011, no Gávea Golf, no Rio de Janeiro.

Quiseram os deuses do golfe que uma combinação de fatores culminassem com o título do Brasil, que apostou em uma equipe jovem, com três juvenis estreantes e média etária beirando os 20 anos. O primeiro sopro a favor do time verde-amarelo veio do Peru, que, contrariando todas as previsões, perdeu um dos dois jogos “fáceis” do último dia, por 9 x 3, para o Equador, que começara o dia em último e só venceu, também no encerramento, a lanterninha Bolívia, que não ganhou de ninguém. De uma vitória e um empate nos dois jogos finais, o Brasil passou a precisar apenas de uma vitória.

Putt da vitória – O tropeço inesperado do Peru permitiu ao Brasil perder para a Colômbia na rodada final, por 5 x7, e ainda ser campeão. Mas precisava ganhar da Venezuela, e não estava fácil. Cada país ganhou um jogo de duplas pela manhã, e a Venezuela venceu um dos quatro jogos individuais à tarde, no buraco final, contra mais duas vitórias do Brasil. O ponto do título coube justamente a um estreante e mais jovem da equipe, o gaúcho Andrey Xavier, de 17 anos, que chegou ao 18 perdendo por um buraco, antes de embocar um putt de mais de dois metros, para empatar seu confronto, dar a vitória ao Brasil por 7 x 5, e o título da Los Andes 2018.

Apontado como seu sucessor por Herik Machado, que por mais de três anos foi o número 1 do Brasil, Andrey assumiu recentemente a liderança do ranking nacional, e formou com o amigo, como ele revelado em um projeto de golfe para crianças de famílias de baixa renda, no interior do Rio Grande do Sul, uma dupla quase imbatível. Jogaram juntos todos os dias, venceram seis jogos e perderam dois, incluindo um para Venezuela na volta final. Só não foram melhor do que a dupla formada pelo carioca Daniel Kenji Ishii e pelo paulista radicado nos EUA Fred Biondi, que terminaram invictos, com sete vitórias e um empate.

Duplas decidiram – Os jogos de duplas – dois contra cada país – são apenas um terço dos jogos da Los Andes, que tem ainda quatro jogos individuais por confronto, mas deram 54 pontos dos 89 feitos pelo Brasil, ou seja, 61º do total. Os jogos individuais – dois terços do total – deram os outros 35 pontos, ou seja, 39%. Um resultado que se deve muito ao treino antecipado feito pelo time do Brasil antes da viagem, que “casou” duas duplas com grande afinidade. Uma situação inversa do que aconteceu no título do Brasil na Los Andes de 1982, no São Paulo GC, quando o Brasil perdeu muito em duplas, mas terminou invicto no individual, com 28 vitórias e quatro empates.

Apesar da euforia de derrotar a Argentina no primeiro dia pela contagem mínima – 7 x 5 – adversário que mais preocupava, por ser o maior ganhador de títulos da Los Andes e vir em busca da terceira vitória consecutiva, o Brasil não teve vida fácil. Líder após ter passado também pela Bolívia (10 x 2) na estreia, os sustos começaram já no segundo dia, quando o Brasil ganhou bem do Peru, que seria o vice-campeão, por 8 x 4, mas perdeu para o Chile, por 5 x 7, com dois jogos só decididos no buraco final. No terceiro dia, os meninos do Brasil deram o passo decisivo para o título ao vencer o Equador por 11 x 1 e o Uruguai, por 9 x 3, para chegar líder por um ponto à rodada final.

Desempenho individual – Los Andes é um jogo por equipes, como fica bem claro desde a forma de disputa das duplas, em tacadas alternadas (foursomes), mas há os que sobressaem individualmente. Fred Biondi, de 17 anos (poucos meses mais velho do que Andrey), que jogou todas as 16 vezes, foi quem mais fez pontos para o Brasil – 25 no total, com 12 vitórias (sete nos oito jogos de duplas), um empate e três derrotas (12-1-3). Revelado no São Paulo GC, Fred mora nos EUA há quatro anos e acaba de ser fechar acordo para jogar na NCAA pelos Gators, da Universidade da California. Chegou cheio de tesão vontade e confiança.

Fred no entanto teve aproveitamento de 78% – 25 pontos em 32 possíveis, perdendo nesse quesito para seu companheiro de dupla, Kenji, o mais “velho” do time, com 25 anos, que não participou do individual da tarde no segundo dia – fez só 14 jogos -, somou 23 pontos (10-3-1) e teve aproveitamento de 82%. Herik Machado, de 22 anos, o mais experiente da equipe, vindo de dois torneios do PGA Tour Latinoamérica, foi o outro único a participar de 16 jogos, fazendo 23 pontos (11-1-4), aproveitamento de 72%. Andrey, o herói do putt do título, jogou 14 vezes e fez 18 pontos (8-2-4), aproveitamento de 64%. Lucas Park, de 18 anos, entrou apenas em quatro jogos individuais contra os adversários mais difíceis do dia, tática de time, perdeu os quatro, mas foi tão decisivo para a vitória quanto os outros, sendo elogiado pelo companheirismo, apesar de ficar no banco.

Economia porca – Aqui vale uma ressalva: o Brasil foi campeão apesar de ter ido para Montevidéu sem um capitão, algo impensável entre os times fortes da Los Andes; até os mais pobres levam o seu. O técnico Luiz Miyamura, da Confederação Brasileira de Golfe, estava junto, é verdade, mas além de não ter grande experiência na Los Andes, profissionais não podem ser capitães, o que deixou o Brasil sem comando em campo. Kenji fez as vezes de capitão, mas como estava jogando quase todo o tempo não pode exercer a função como necessário, limitando-se a apresentar os nomes no sorteio dos jogos, seguindo orientação de Miyamura.

Mas um capitão fez e sempre fará falta. Na Los Andes, o capitão é o único que pode andar junto com a dupla ou jogador de seu time, dar informações dos outros jogos, pode dar palpites, acalmar, incentivar, consolar etc, exceto quando a bola chega ao green. E a CBG tem em seus quadros nada menos do que Roberto Gomez, recordista mundial de participações na Los Andes, para não falar em Otávio Villar, o Fanta, entre outros nomes para a função, para ficar apenas nos mais óbvios. Economia porca que, felizmente, mais uma vez graças ao plantão dois deuses do golfe, não passará à história. Obs.: Euclides Gusi, presidente da CBG, que comandou a delegação do Brasil, garante que “não foi economia, foi estratégia”.

Rebaixamento nem sempre existiu – A equipe masculina do Brasil não vencia a Los Andes fora de casa desde 1995, em Quito, no Equador, o último ano em que jogaram todos os dez países que compõe a Federação Sul-Americana de Golfe. Isso, infelizmente, exigia seis dias de jogos para que todos pudessem enfrentar todos, o que se tornou um problema com a falta de tempo crônica do mundo moderno. Instituiu-se, assim, a partir daquele ano, a figura do rebaixamento, com o clube classificado em último lugar, no caso a Bolívia, deixando a competição por um ano, até substituir o rebaixado seguinte, o que permitiu reduzir a Los Andes para novo países e quatro dias de jogo, com saídas três a três (o país A enfrenta B e C, que também jogam entre si).

O Brasil já havia sido vítima do rebaixamento em 1999, no Chile, quando empatou em sétimo e último lugar com Peru e Uruguai, mas perdeu de ambos nos critérios de desempate. Ficou fora da Los Andes de 2000, e não foi bem no ano seguinte, quando terminou em oitavo, antes de vencer em 2002, no Rio de Janeiro. Infelizmente o rebaixado de 2017, que não jogou este ano, foi o time feminino do Brasil, que só volta a competir em 2019. As meninas não ficaram em último em 2017, mas como o lanterninha foi o Uruguai, que tinha que jogar por ser a sede deste ano, sobrou para o Brasil. Fica a inspiração dos meninos, para dar a volta por cima no ano que vem.

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