Dica do Pro : Não deixe seu corpo mentir para você

10/12/2015

Aprender a controlar suas reações fisiológicas ao estresse é tão importante quanto investir na parte técnica de seu jogo

 

por: André Aroni (foto): Golf Fitness Trainer / MSC Sports Training da Academia GolfRange Campinas

Se o golfe tivesse um detector de mentiras ele seria o Nexus10 – Mark II, um aparelho de avaliação cognitiva-comportamental que mede suas respostas ao estresse do jogo de forma semelhante aos equipamentos que ajudam a identificar quando um suspeito está mentindo num interrogatório. Comum fora do Brasil no treinamento de esportistas, em nosso país essa ferramenta ainda é pouco conhecida e, no golfe, só é usada no Performance Center da Academia GolfRange Campinas, sob a orientação do professor Andre Aroni, especialista em fisiologia do exercício e Mestre em Psicologia do Esporte, atualmente concluindo doutorado em Desenvolvimento Humano e Tecnologias pela Florida State University e UNESP, tendo como tese a Adaptação de Jogadores de Golfe às Situações de Estresse Competitivo.

Nessa entrevista ao jornalista Ricardo Fonseca, Aroni fala sobre seu trabalho, sobre experiência profissional e explica de forma clara como o treino psicológico é tão importante quanto o treino técnico e a importância que isso pode ter em seu jogo. Quer tirar algumas ou muitas tacadas de seu handicap? Veja como o treinamento psicológico pode te ajudar e forma prática e rápida.

Ricardo Fonseca: O que é o Nexus?
Andre Aroni: O Nexus, na verdade, é a marca mais importante de equipamento de bio feedback, muito usado na parte psicológica do esporte, o Corinthians tem, alguns clubes de ginástica que tem, existe até uma associação de bio feedback. É uma ferramenta comum fora do Brasil, é uma das principais ferramentas para ser usada na parte psicológica do esporte, porque é a única que te dá uma resposta mais clara. O problema da psicologia é que é muito abstrata, então, às vezes, é difícil explicar isso para o atleta. Concentração, a parte de controle, motivação, são questões abstratas, difíceis de serem mensuradas e mostradas ao atleta.

RF: E como o Nexus mostra isso?
AA: Quando você tem uma máquina dessas, que te dá respostas fisiológicas como frequência cardíaca, respiratória, nível de estresse, temperatura corporal, periférica e central, que são algumas respostas fisiológicas causadas por alterações de comportamento, fica mais fácil, mostrar para o atleta e dizer: “olha, de acordo com essa situação, você tem esse tipo de sintoma, e esse sintoma que atrapalha seu jogo”.

RF: O Nexus funciona, grosso modo, como um detector de mentira?
AA: Ele poderia ser utilizado como. A leitura é diferente, mas é parecido porque há respostas fisiológicas de alterações de comportamento que ocorrem tanto quando alguém está mentindo quando dá três tacadas sem sair da banca, por exemplo. Quando você enfrenta uma situação de estresse, algo acontece com seu corpo. Isso muda todo o tempo, é muito dinâmico, mas com o Nexus você consegue acompanhar, em tempo real, exatamente o que está acontecendo com o jogador. E, com base nesses sintomas é que você traça alguns tipos de estratégias e ferramentas para que aquilo seja controlado.

RF: Como funciona o Nexus?  
AA: Ele é um sensor do tamanho de uma mão, e dele saem alguns cabos, os sensores, geralmente colocados no dedo e no tronco, como se fosse um eletrocardiograma, mas com a vantagem de ser muito fácil de utilizar, interferir muito pouco com o swing de golfe, e de eu poder usá-lo no campo. Essa é a grande vantagem: é pequeno, é portátil, basta usar o bluetooth do computador. Quando trabalho com um aluno, ele vai para o campo e no computador estou acompanhando quais são as repostas que ele tem em tempo real, em situações de jogo.

RF: Dá para usar em competição?
AA: Em competição ele atrapalha um pouquinho porque alguns sensores vão na mão. O que a gente fez, foi criar uma competição nossa para fazer este estudo, dependendo do que eu quero medir. Frequência cardíaca e frequência respiratória, não tem problema, porque é uma fita na barriga e outra no tronco, e eles são bons marcadores. Se eu quero ver stress eu coloco dois eletrodos nos dedos, então você ainda consegue fazer o grip, na tarefa de putt é super confortável, no swing até dá, mas não o full swing, porque fica um cabo balançando, fica esquisito. Mas em nossa competição eu consigo ver como o atleta reage quando fica irritado depois de um erro, de uma situação dramática para ele.

RF: Mesmo sendo uma simulação, um laboratório, o jogador fica estressado?
AA: Fica. Normalmente fica e só pelo fato de estar sendo testado ou medido. Na primeira, segunda, terceira vez as medições são desconfortáveis, mas a partir da quarta ou quinta sessão o atleta fica mais à vontade, já sabe para o que aquilo funciona. Normalmente no primeiro dia eu só explico como funciona, faço algumas brincadeiras, só a partir da segunda, terceira é que a gente começa a testar as coisas.

RF: Quanto tempo normalmente leva cada seção?
AA: Isso é relativo, mas varia entre trinta minutos e uma hora. As condições podem variam muito então se eu medir no primeiro, segundo, terceiro dia eu sei qual é a base do atleta, com ele parado, sem nenhum tipo de estimulo, ou o menor possível. Essa linha de base é o seu repouso. Aí vou te colocar em algumas situações de stress, que pode ser um teste da parte cognitiva, como te pedir que conte de sete em sete, começando pelo 802. A cabeça começa a funcionar mais do que funcionava, a pessoa se irrita de alguma forma, e começo a ver como são as respostas, como a frequência cardíaca aumenta. E ele nem movimentou o corpo.

RF: Essas respostas fisiológicas podem ser inibidas ou controladas?
AA: Não dá para inibir. É claro que com o passar do tempo, com a experiência, com a prática, o atleta fica menos ansioso em certas situações, mas sempre pode haver uma situação nova. Qualquer estressor pode gerar uma ansiedade, só que, se eu tenho as ferramentas para trabalhar isso, por exemplo, exercícios respiratórios, mentalização, auto conversa, com essas estratégias psicológicas eu controlo esses efeitos.

RF: Quais são os marcadores mais importantes para o golfe?
AA: Eu vejo que a frequência cardíaca dá de maneira bem fidedigna uma reposta sobre a parte cognitiva, então vou dar um exemplo prático para ficar claro: se eu tenho um golfista que retarda muito a decisão dos tacos, que na caminhada para a bola ainda não começou a pensar como será o próximo tiro e só vai pensar quando chega na bola, existe uma mudança rápida da parte cognitiva e a frequência cardíaca aumenta só pelo fato de ele querer resolver essa situação. Se ele tem uma média de 110 batimentos, frequência normal de caminhada, vai pra 140 facilmente. E fazer um swing com 140 é completamente diferente de fazer o swing com 110, porque no momento do swing não te permite pensar em nada, aquilo deve ser algo automático. Atletas de bom nível com handicap de 8 pra baixo, eles já estão automatizados no swing, não pensam, se pensar começam a errar. A partir da hora que você dá sua tacada, tem que começar a se preparar para a próxima para que não chegue tão indeciso, porque indecisão no golfe mata. Você constrói a rotina, ao caminhar até a bola você já vai pensando qual será sua próxima tacada e já pega o ferro certo. Já vai vendo se tem vento, se tem banca, qual o lie.

RF: Todo mundo então tem reações fisiológica ao estresse. Como resolver? Como impedir que isso atrapalhe seu jogo?
AA: Não existe receita de bolo, tem coisas que funcionam mais ou menos para as pessoas, é muito individual, depende da pessoa e do contexto. Mas posso dividir entre a parte cognitiva e a parte emocional, são duas vias que andam paralelas. Então, se alguém fica mais ansioso ou muito irritado no jogo, talvez as soluções sejam diferentes das para quem só pensa demais.

RF: Preparação física influencia nisso?
AA: Influencia porque toda a parte fisiológica já funciona mais redondinha, e normalmente um atleta bem preparado fisicamente respira melhor, a capacidade de oxigenação é maior. Muita gente em que eu coloco o sensor de respiração não usa a parte diafragmática, usa muito o peito para respirar. Se eu não uso o diafragma não uso toda a minha capacidade pulmonar, então se não uso todo o pulmão tem menos oxigenação. Depende ainda muito da idade, nível físico, da capacidade. Há pessoas que são mais resistentes, outras mais potentes. Má preparação física pode implicar em erros mais acentuados a partir do 13º buraco, por exemplo, porque já estou mais cansado. Frequência cardíaca é tão importante, quanto frequência respiratória e, não só a frequência, que é o numero de vezes que bate coração ou respiro, mas a qualidade disso. Eu posso ter um número de respirações por minuto, mas se usar só a parte pulmonar não será tão eficiente, então talvez tenha que ensinar como usar toda a capacidade do pulmão para depois começar a trabalhar exercícios respiratórios. ,

RF: A frequência cardíaca também varia de qualidade?
AA: Quanto mais baixa mais eficiente é para esportes de longa duração como é o golfe. A frequência respiratória quanto mais oxigena, menos preciso respirar. Quando tenho de oito a doze ciclos respiratórios por minuto, está perto do ideal. Se eu estiver ansioso vou ficar mais ofegante, e aí vai virar uma loucura. A ideia principal é que não há problema quando sinto algo e sim se não sei como controlar. Essa tecnologia é fundamental porque não há outra maneira de mostrar isso para o atleta e provar que isso acontece. O atleta precisa ver para acreditar.

RF: Como se mede o estresse?
AA: Com dois sensores, um em cada dedo, que medem a condução elétrica pela pele; quanto mais rápido passar esse impulso, mais estressado, porque estou com as mãos mais suadas. Quanto mais hidratado, a condução passa mais rápida. O teste mede com uma sensibilidade absurda, então, se você lembrar-se de um dia, uma situação que te deixou tenso, suas mãos ficarão frias e suarão um pouco; mesmo que você não perceba a transpiração, o sensor percebe. Os sintomas são muito pessoais, mas a transpiração sempre modifica. E normalmente, sob estresse, a temperatura central aumenta, também tem um sensor para medir, mesmo com um termômetro é perceptível; sabe a sensação de calor dentro do corpo, as extremidades esfriam porque o corpo começa a mandar o fluxo sanguíneo parta onde interessa mais, então pés e mãos ficam frias, suadas, tem gente que sente uma dorzinha no estomago, e como a frequência cardíaca e respiratória elevam, os rins trabalham mais, então, dá vontade de ir ao banheiro, são vários sintomas, mas que variam entre as pessoas. Uns tem vontade de fazer xixi, outros sentem as mãos frias, alguns não sentem, mas ficam trêmulos.

RF: Rotina é sempre importante?
AA: Fora o efeito fisiológico, a rotina é boa para que o jogador se concentre no que é relevante. Se eu tenho uma rotina, um ritual antes de uma tacada, estou tão concentrado naquilo que não penso com quem estou jogando, no escore, eu penso que tenho que executar aquilo porque aquilo é importante. E vou me concentrar no que é bom, alinhamento do corpo, como está meu grip, fazer um check list que te deixa mais confiante. Se não tenho uma rotina, ainda vou ficar pensando naquela banca, me manter irritado com o erro passado, e nem percebo que estou com o corpo o torto e aí vou fazer uma tacada pior ainda. Isso começa a virar uma bola de neve e aí o cara não volta mais para o jogo.

RF: Quando tempo se deve dedicar à preparação psicológica?
AA: Se agente pensar numa preparação ideal temos os aspectos técnicos, físicos, estratégicos e psicológicos, o psicológico vai me garantir pelo menos 25% da preparação. O problema é que o brasileiro não treina nem dois por cento, eu tenho uma pesquisa disso. O americano treina de 20 a 25% o aspecto psicológico no golfe, enquanto o brasileiro de dois, três por cento e de maneira informal, ele não percebe. Ele cria uma situação de pressão, mas não tem controle se está respirando, só tenta se adaptar a essa pressão, é o único estimulo psicológico que ele tem. E posso me preparar muito bem tecnicamente, tenho uma boa estratégia de jogo, só que aí choveu domingo que é algo que não treinei, bem no último dia eu tenho desempenho fraco e não ganho o torneio. Ou vou para o campo com alguém que eu não simpatizo…

RF: Um jogador de handicap médio precisa fazer esse trabalho com que frequência?
AA: Toda essa parte é comportamental, não tem muito da psicanalise, senão não acaba nunca. A gente tem um grande problema que quando se fala em amador, normalmente são pessoas que tem muitas tarefas, executivos, então tenho que trabalhar com o tempo que ele tem. Ele pode treinar em casa, no trânsito, ajuda até, mas o que penso é que pelo menos os atletas amadores deveriam saber que esse é um aspecto muito importante do jogo. Assim como eu treino putt, sei o posicionamento com uma madeira, no dia que me perceber ansioso preciso conhecer um exercício respiratório para me ajudar. Vai resolver? Não sei, mas vai reduzir aquele efeito que me atrapalha.
Eu recomendo umas quatro ou cinco sessões que são suficientes para que todos aprendam, uma será só avaliação, e depois três ou quatro sessões para que ele aprenda algumas estratégias que pode utilizar no campo. Aí se isso vai ser extremamente eficiente ou não, vai depender do treino, porque não é com três ou quatro sessões de respiratório que ele vai conseguir. E a cada três meses é bom fazer uma reavaliação para saber se aquela situação já não estressa tanto.

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