R&A e USGA publicam nova decisão que limita uso de vídeos para punir jogadores

25/04/2017

"Regra Lexi Thompson" dá mais poderes aos árbitros e reforça integridade do golfista

 

por Ricardo Fonseca

O R&A e a USGA reagiram com uma rapidez nunca vista antes à enxurrada de críticas que receberam após a decisão que puniu Lexi Thompson, um dia depois do ocorrido, com base em “evidências” de vídeo, com quatro tacadas de penalidade, o que lhe custou o título do primeiro major da temporada feminina, o ANA Inspiração. Para quem não leu, esse é o link para o artigo que escrevi na ocasião, engrossando o coro dos que classificaram a punição como absurda, opinião, como se vê agora, compartilhada pelas maiores autoridades em Regras do golfe mundial.

Apesar de já apelidada como “Regra Lexi Thompson”, trata-se, na verdade, de uma Decisão, a de número 34-3/10, que na prática dá poderes de discernimento aos Comitês de Competição, acabando com a penalidade obrigatória em casos em que “evidências” de vídeo, sugerem infrações às Regras que não poderiam ser facilmente perceptíveis a olho nu. Uma decisão a ser aplaudida por reforçar o que há de mais nobre no golfe: a presunção da integridade do jogador e de sua palavra.

 “Estou 100% segura que não foi intencional, pois a Lexi é uma jogadora classe A”, afirmou (Sue) Witters (vice-presidente de Regras do LPGA Tour), sem se dar conta que passava para a história por uma decisão idiota e injusta. “O que mais eu poderia fazer”, desculpou-se.

Questões chave – O trecho acima, retirado da citada reportagem, mostra bem o espírito que norteou a publicação da nova Decisão. O texto da Regra existente até então não permitiu que Witters se sentisse à vontade e tivesse a coragem de não punir Lexi – “O que mais eu poderia fazer?” – indagou ela. Pela nova Decisão Witters poderia fazer diferente sim, pois dois fatores chaves passam a ser considerados a partir de agora, antes de uma possível punição ser tomada: “razoável padrão de julgamento” e “olho nu”.

A Decisão 34-3/10 é complexa e exigiu do R&A e USGA duas páginas de texto (em inglês) cuja íntegra você pode ler clicando aqui. A nova Decisão afirma que quando um jogador determina uma posição da bola em situações que incluem o ponto de alívio mais próximo ou recolocar uma bola levantada, ele não precisa (e nem pode) ter “o grau de precisão que às vezes pode ser fornecido pela tecnologia de vídeo”. De acordo com a frase chave da nova Decisão, “desde que o jogador faça o que razoavelmente pode ser esperado nas circunstâncias para ser preciso, o julgamento do jogador será aceito, mesmo que posteriormente demonstrado ser impreciso pelo uso de evidências de vídeo”.

Igualdade – “Nós estamos tentando garantir que não se exija dos jogadores que aparecem na televisão um padrão de precisão mais elevado do que o de todos outros, que a tevê não mostra”, disse Thomas Pagel, diretor sênior de Regras da USGA, ao apresentar a nova Decisão para a imprensa, neste terça-feira. “A evidência da televisão pode revelar fatos que um ser humano não poderia razoavelmente ter sabido no momento do jogo”.

“Um jogador pode fazer tudo o que ele poderia para acertar, mas a evidência de vídeo sempre ainda poderá mostrar que ele cometeu um pequeno erro”, explica Pavel. “E a única razão pela qual podemos saber desses erros é porque fomos capazes de gravar, pausar, retroceder e reproduzir um vídeo ampliado e em câmara lenta, quantas vezes quisermos, o que o jogador no campo não tem como fazer”.

“Regra Nordqvist” – Mas não se trata apenas do caso de Lexi, embora tenha sido o que gerou mais revolta e feriu o brio das entidades responsáveis pelas Regras. A expressão “olho nu”, também fundamental na nova Decisão, pode ser uma resposta à injustiça perpetrada contra Anna Nordqvist, penalizada em duas tacadas durante o playoff de três buracos contra Brittany Lang, no US Women’s Open de 2016, depois que vídeo de alta definição e em câmera lenta mostrou que ela tinha roçado a areia durante seu backswing na banca da raia do segundo buraco extra. Nordqvist perdeu.

A nova decisão estabelece que, se o Comitê concluir que um ato “não poderia razoavelmente ter sido visto a olho nu e o jogador não tinha conhecimento da possível violação, o jogador será considerado como não tendo violado as Regras, mesmo quando a tecnologia de vídeo mostre o contrário.”

DNA – É claro que a nova Decisão tem ainda o DNA do caso de Dustin Johnson, que foi penalizado em uma tacada na rodada final do US Open de 2016, após prova de vídeo ser usada para determinar que ele teria feito a bola se mover enquanto se preparava para tocar um putt curto no quinto buraco. Johnson afirmou que suas ações não tinham provocado o movimento da bola. Não foi ouvido. Mas ao contrário de Thompson e Nordqvist, Johnson ainda ganhou, o que diminui o impacto das críticas.

Esses dois itens principais abrangidos pela nova Decisão já faziam parte das propostas modernização das regras, colocadas em discussão pública, mas que só deverão entrar em vigor em 1º de janeiro de 2019, com o objetivo de tornar as regras mais compreensíveis e concisas. Mas 2019 ficou longe demais quando o uso de evidências em vídeo causa tantas controvérsias por resultados potencialmente injustos que estão tendo um impacto negativo no golfe e nos negócios bilionários que ele movimenta.

Pergunta que não quer calar – As entidades, no entanto, empurraram com a barriga uma decisão crucial: a permissão de avisos de torcedores com base em vídeos continuem a ser usados como evidência. “As Regras do Golfe e os Comitês que aplicam as Regras de Golfe atualmente tratam todas as provas como evidência, independentemente da fonte”, justifica Pagel. “Mas estamos debruçados sobre o assunto”.

Ok, o R&A e a USGA agiram rapidamente para evitar que punições erradas voltem a acontecer, mas esqueceram de um princípio básico do Direito: Lexi Thompson foi acusada anonimamente e lhe surrupiaram o direito de ser confrontada com seu acusador. Ou, ao menos, de saber o nome de que enviou o vídeo, que até hoje o LPGA Tour insiste em manter incógnito.

Força do Mal – Pode parecer irrelevante, mas digamos, num exercício de imaginação, que uma “força tarefa do mal” de um país qualquer que tenha muitas jogadoras disputando títulos de torneios pode, quando uma dessas jogadoras está ameaçada de perder, passar a noite toda procurando em vídeos de alta definição detalhes imperceptíveis a olho nu para tentar desclassificar uma ou outra adversária de interesse do “grupo”.

Lembre que a acusação contra Lexi só foi feita no dia seguinte à dita infração – recolocou a bola para um putt curto, quase dado, ao lado do local original (não à frente), perto de um centímetro de diferença, e foi penalizada em duas tacadas, por ter jogado de lugar errado, e em mais duas, por ter assinado o cartão a menor (sem as duas tacadas), sem dolo (se houvesse seria desclassificada). E isso só chegou ao Comitê enviado pelo tal “torcedor anônimo”, quando Lexi ia para os nove buracos finais vencendo por duas.

A quem interessa? – Maquiavélico? Longe disso. Acredito ser “razoavelmente” possível que isso ocorra ou tenha acontecido em mais de uma ocasião, provavelmente à revelia do jogador beneficiado. A desclassificação de Lexi pode ter sido um crime perpetrado intencionalmente, com dolo, na hora certa para lhe surrupiar o título. E, quando há crime, a primeira pergunta que se deve fazer é “A quem interessa?”.

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